(Paródia de “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes)
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De nada a esse animal serei atenta
Nunca, e com tal frieza, e sempre, e tanta
Que mesmo diante dessa jamanta,
Dela não se ocupará minha garganta.
Vou desmascará-lo em cada argumento
E pra seu terror cada vez mais me abrilhanto
Ao rir meu riso e derramar seu pranto,
Pro seu pesar, até o seu passamento.
E assim, quando em breve te triture
Esta Samurai, e te ponha no esquife,
Acabará de vez este seu melodrama.
Eu apenas direi sobre tu, patife:
É tão ruim que o corpo ninguém reclama,
Não se ouve uma prece que alguém murmure.
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Soneto de Fidelidade (Vinicius de Moraes)
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
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In “Antologia Poética”.
Ou Isto Ou Aquilo (Cecília Meireles)
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
Pontos de Vista / 2 (Eduardo Galeano)
Do ponto de vista do sul, o verão do norte é inverno.
Do ponto de vista de uma minhoca, um prato de espaguete é uma orgia.
Onde os hindus veem uma vaca sagrada, outros veem um grande hambúrguer.
Do ponto de vista de Hipócrates, Galeno, Maimônides e Paracelso, havia uma enfermidade no mundo chamada fome.
Do ponto de vista de seus vizinhos no povoado de Cardona, o Toto Zaugg, que andava com a mesma roupa no verão e no inverno, era um homem admirável:
- O Toto nunca tem frio - diziam.
Ele não dizia nada. Frio ele tinha, o que não tinha era agasalho.
Do ponto de vista de uma minhoca, um prato de espaguete é uma orgia.
Onde os hindus veem uma vaca sagrada, outros veem um grande hambúrguer.
Do ponto de vista de Hipócrates, Galeno, Maimônides e Paracelso, havia uma enfermidade no mundo chamada fome.
Do ponto de vista de seus vizinhos no povoado de Cardona, o Toto Zaugg, que andava com a mesma roupa no verão e no inverno, era um homem admirável:
- O Toto nunca tem frio - diziam.
Ele não dizia nada. Frio ele tinha, o que não tinha era agasalho.
Poeminha do Contra (Mário Quintana)
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
No Meio do Caminho (Carlos Drummond de Andrade)
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Interjeição (Bruna Lombardi)
Qual é a atitude
que você está tomando, moço?
Que grito você está dando
que eu não ouço?
Que é que está adiantando
falar grosso?
Que laço, que fita, que farsa
que nó é esse amarrado
no pescoço?
Moço, que palhaçada, que festa
é essa? Que luz
se nos taparam o sol?
Que é que resta, que é que presta
como é que se pode nadar
no meio de tanto anzol?
E quando a corrida começa
todo mundo disparado
pisando em quem tropeça.
Moço, que incongruência
um sorriso numa hora dessa...
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que você está tomando, moço?
Que grito você está dando
que eu não ouço?
Que é que está adiantando
falar grosso?
Que laço, que fita, que farsa
que nó é esse amarrado
no pescoço?
Moço, que palhaçada, que festa
é essa? Que luz
se nos taparam o sol?
Que é que resta, que é que presta
como é que se pode nadar
no meio de tanto anzol?
E quando a corrida começa
todo mundo disparado
pisando em quem tropeça.
Moço, que incongruência
um sorriso numa hora dessa...
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In “No Ritmo Dessa Festa”.
Michel de Montaigne
Os que se exercitam a perscrutar as ações humanas, em coisa alguma se acham tão embaraçados como em conjugar umas com as outras e mostrá-las à mesma luz, pois comumente elas se contradizem entre si de modo tão estranho que parece impossível terem todas saído da mesma loja.
(...) Alguma razão parece haver no julgar um homem pelas mais comuns ações da sua vida, mas, atendendo à natural instabilidade dos nossos costumes e opiniões, amiúde se me tem afigurado que mesmo os bons autores erram ao obstinarem-se a conceberem-nos como um todo coerente e constante. Escolhem uma imagem global, segundo a qual classificam e interpretam todas as ações da personagem, e quando não as conseguem conformar a ela, atribuem-nas à dissimulação.
(...) O nosso procedimento habitual é seguir as inclinações do nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, para onde quer que nos empurrem os ventos das circunstâncias. Não pensamos no que queremos senão no instante em que o queremos, e mudamos como o animal que adquire a cor do local onde o pousam. O que agora mesmo acabamos de projetar, em breve o viremos a alterar, e, pouco mais tarde, voltaremos sobre os nossos passos: tudo não é senão oscilação e inconstância.
(...) Alguma razão parece haver no julgar um homem pelas mais comuns ações da sua vida, mas, atendendo à natural instabilidade dos nossos costumes e opiniões, amiúde se me tem afigurado que mesmo os bons autores erram ao obstinarem-se a conceberem-nos como um todo coerente e constante. Escolhem uma imagem global, segundo a qual classificam e interpretam todas as ações da personagem, e quando não as conseguem conformar a ela, atribuem-nas à dissimulação.
(...) O nosso procedimento habitual é seguir as inclinações do nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, para onde quer que nos empurrem os ventos das circunstâncias. Não pensamos no que queremos senão no instante em que o queremos, e mudamos como o animal que adquire a cor do local onde o pousam. O que agora mesmo acabamos de projetar, em breve o viremos a alterar, e, pouco mais tarde, voltaremos sobre os nossos passos: tudo não é senão oscilação e inconstância.
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In “Ensaios - Da Inconstância das Nossas Ações”.
Bernhard Schlink
(...) hoje reconheço, naquilo que então aconteceu, o esquema por meio do qual o pensamento e a ação se conjugaram ou divergiram durante toda a minha vida. Penso, chego a um resultado, fixo-o numa conclusão e apercebo-me de que a ação é algo independente, algo que pode seguir a conclusão, mas não necessariamente. Durante a minha vida, fiz muitas coisas que não tinha decidido fazer, e não fiz outras que tinha firmemente decidido fazer. Algo que existe em mim, seja lá o que for, age; algo que me faz ir ter com uma mulher que já não quero voltar a ver, que faz ao superior um reparo que me pode custar o emprego, que continua a fumar embora eu tenha decidido deixar de fumar, e que deixa de fumar quando me resignei a ser um fumante para o resto dos meus dias.
Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na ação. Mas a ação não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões.
Não quero dizer que o pensamento e a decisão não tenham alguma influência na ação. Mas a ação não decorre só do que foi pensado e decidido antes. Surge de uma fonte própria, e é tão independente como o meu pensamento e as minhas decisões.
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In “O Leitor”.
Antoine de Saint-Exupéry
Nenhuma explicação verbal poderá alguma vez substituir a contemplação. A unidade do Ser não é transmissível pelas palavras. Se eu quisesse ensinar a homens, cuja civilização o desconhecesse, o que é o amor a uma pátria ou a uma quinta, não disporia de argumento algum para os convencer. São os campos, as pastagens e o gado que constituem uma quinta. Todos e cada um deles têm como missão produzir riqueza. No entanto, há alguma coisa na quinta que escapa à análise dos seus componentes, pois existem proprietários que, por amor à sua quinta, se arruinariam para a salvar. Pelo contrário, é essa “alguma coisa” que enriquece com uma qualidade particular os componentes. Estes se tornam gado de uma quinta, prados de uma quinta, campos de uma quinta...
Assim se passa a ser homem de uma pátria, de um ofício, de uma civilização, de uma religião. Mas, para que alguém se reclame de tais Seres, convém, antes de mais nada, fundá-los em si próprio. E, se não existir o sentimento da pátria, nenhuma linguagem o transmitirá. O Ser de que nos reinvindicamos não o fundamos em nós senão por atos. Um Ser não pertence ao domínio da linguagem, mas dos atos. O nosso Humanismo desprezou os atos. Fracassou na sua tentativa.
Assim se passa a ser homem de uma pátria, de um ofício, de uma civilização, de uma religião. Mas, para que alguém se reclame de tais Seres, convém, antes de mais nada, fundá-los em si próprio. E, se não existir o sentimento da pátria, nenhuma linguagem o transmitirá. O Ser de que nos reinvindicamos não o fundamos em nós senão por atos. Um Ser não pertence ao domínio da linguagem, mas dos atos. O nosso Humanismo desprezou os atos. Fracassou na sua tentativa.
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In “Piloto de Guerra”.
Francis Bacon
A audácia é filha da ignorância e da rudeza, e muito inferior a todos os outros dons. Ela fascina, porém, atando-lhes os pés e as mãos, aos que são débeis de entendimento e falhos de coragem que formam a maioria; e prevalece até sobre os homens sábios nas horas da fraqueza. Por isso vemos que ela fez maravilhas nos Estados populares, menos do que nos governados por Senados ou por Príncipes; e muito mais ao primeiro arranco das pessoas audaciosas, do que depois, porque a audácia é má cumpridora de promessas.
(...) Certamente aos homens de grande entendimento, os audaciosos dão um espetáculo de muito gozo; e até mesmo para o vulgo, a audácia não deixa de ser ridícula. Porque se o absurdo é o fundamento do riso não duvideis de que uma grande audácia raramente existe sem absurdo.
(...) Deve ser bem considerado que a audácia é sempre cega, para não ver os perigos e as inconveniências. Por isso ela é má no conselho e boa na execução; para bem aproveitar e utilizar as pessoas audaciosas é preciso que elas nunca estejam na chefia do comando, mas em segundo lugar, sob a direção de outros. Porque no conselho é bom ver os perigos, e na execução é bom não os ver, exceto quando forem muito grandes.
(...) Certamente aos homens de grande entendimento, os audaciosos dão um espetáculo de muito gozo; e até mesmo para o vulgo, a audácia não deixa de ser ridícula. Porque se o absurdo é o fundamento do riso não duvideis de que uma grande audácia raramente existe sem absurdo.
(...) Deve ser bem considerado que a audácia é sempre cega, para não ver os perigos e as inconveniências. Por isso ela é má no conselho e boa na execução; para bem aproveitar e utilizar as pessoas audaciosas é preciso que elas nunca estejam na chefia do comando, mas em segundo lugar, sob a direção de outros. Porque no conselho é bom ver os perigos, e na execução é bom não os ver, exceto quando forem muito grandes.
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In “Ensaios - Da Audácia”.
Georg Lichtenberg
Conquistar o êxito graças a obras que não exigiram a totalidade das nossas forças é uma coisa perigosa para o aperfeiçoamento do espírito. Segue-se, normalmente, que se espezinha no mesmo local. É o que incita La Rochefoucauld a pensar que ainda não aconteceu que um homem tivesse realizado tudo aquilo de que seria capaz. Considero esta ideia verdadeira para a maior parte.
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In “Aforismos”.
La Rochefoucauld
O que tomamos por virtudes muitas vezes não passa de um conjunto de ações diversas e de diversos interesses que o acaso e a nossa indústria sabem ajustar; e nem sempre é por valentia e por castidade que os homens são valentes e as mulheres castas.
A virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.
(...) Os vícios entram na composição das virtudes como os venenos na dos remédios. A prudência mistura-os, tempera-os, e serve-se deles eficazmente contra os males da vida.
A virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.
(...) Os vícios entram na composição das virtudes como os venenos na dos remédios. A prudência mistura-os, tempera-os, e serve-se deles eficazmente contra os males da vida.
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In “Reflexões”.
Alfred Montapert
O movimento não é progresso, assim como a atividade não é realização. O esquilo na sua gaiola rotativa faz movimento e mostra atividade sem chegar a parte alguma. Quem se deixa ir ao sabor das ondas pode ter grande atividade mas mover-se para trás. A sua energia pode dissipar-se, como o vapor de água no espaço vazio, se falar demais sobre os seus planos. Seja um executor, não um falador.
Pense, sim, mas não divague até outra pessoa pensar, resolver e agir. O homem que tem de ser convencido a agir antes de entrar em atividade não é um homem de ação... tem de agir conforme respira. Proceda como se fosse impossível falhar. Só as suas ações determinam e mostram o seu valor. Se ficar recostado e quieto vendo o mundo passar - o mundo passa mesmo. Não há nenhuma força do destino a planejar a vida dos homens. O que nos sucede, de bom ou de mau, é quase sempre o resultado da nossa ação ou da falta dela. A ação é a base de qualquer realização.
Pense, sim, mas não divague até outra pessoa pensar, resolver e agir. O homem que tem de ser convencido a agir antes de entrar em atividade não é um homem de ação... tem de agir conforme respira. Proceda como se fosse impossível falhar. Só as suas ações determinam e mostram o seu valor. Se ficar recostado e quieto vendo o mundo passar - o mundo passa mesmo. Não há nenhuma força do destino a planejar a vida dos homens. O que nos sucede, de bom ou de mau, é quase sempre o resultado da nossa ação ou da falta dela. A ação é a base de qualquer realização.
Epiteto
Face a qualquer ação, pondera os antecedentes e as consequências, e só depois, mas só depois!, começa a executá-la. Caso não procedas assim, grande será o teu ânimo no começo, dado que não cuidaste das dificuldades que a seguir se apresentam. Tempo depois, quando essas dificuldades, uma a uma, se apresentarem, abandonarás a tua tarefa de maneira vergonhosa.
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In “Manual”.
Fernando Pessoa
O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir.
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In “Livro do Desassossego”.
Friedrich Nietzsche
Não acusamos a Natureza de imoral, se ela nos manda uma trovoada e nos molha: porque chamamos imoral à pessoa que prejudica? Porque, aqui, admitimos uma vontade livre exercendo-se arbitrariamente; ali, uma necessidade. Mas essa distinção é um erro. E mais: nem em todas as circunstâncias chamamos “imoral” mesmo ao ato de lesar com intenção; por exemplo, mata-se deliberadamente um mosquito, sem hesitação, apenas porque o seu zumbido nos desagrada, castiga-se com intenção o criminoso e inflige-se-lhe sofrimento, para nos protegermos a nós e à sociedade. No primeiro caso, é o indivíduo que, para se manter ou até para não se expor a um desagrado, faz sofrer intencionalmente; no segundo, é o Estado. Toda a moral aceita que se faça mal de propósito, em legítima defesa: ou seja, quando se trata da conservação de si próprio! Mas estes dois pontos de vista bastam para explicar todas as más ações cometidas por seres humanos contra seres humanos: ou se quer prazer para si ou se quer evitar desprazer; em qualquer dos sentidos, trata-se sempre da conservação de si próprio. Sócrates e Platão também têm razão: seja o que for que o homem faça, ele faz sempre o bem, isto é, aquilo que lhe parece bom (útil), consoante o grau da sua inteligência, consoante a respectiva medida da sua racionalidade.
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In “Humano, Demasiado Humano”.
Canção na Plenitude (Lya Luft)
Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
Milorad Pavitch
Em algum lugar, no litoral dos mares do sul, lá onde as estrelas estão mais distanciadas de suas imagens, os passageiros de um navio comeram uma tartaruga gigantesca. Quinhentos anos depois, um marinheiro encontrou o casco sobre a mesma praia e nele se escondeu para passar a noite. Pela manhã, descansado e alegre, enfiou braços, pernas e cabeça através dos furos do casco e entrou no mar, brincando consigo próprio.
Depois de meio milênio, o casco de tartaruga novamente ecoa as batidas de um coração, e novamente consegue nadar.
É assim que o teu coração ecoa dentro de mim.
Depois de meio milênio, o casco de tartaruga novamente ecoa as batidas de um coração, e novamente consegue nadar.
É assim que o teu coração ecoa dentro de mim.
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