Divisas, limites, muros,
Tapumes, painéis, divisórias...
Do outro lado de cada cerca,
Muitas distintas histórias.
Histórias que são rumores
De vidas iguais às nossas.
Mas cada um com seu arado,
Tão diferentes as roças...
Uns que plantam pimenteiras,
Outros, pomares em fim,
Há os que constroem cercas,
Os que adoram capim.
Aqueles que roçam cedo,
Os que deixam ao Deus dará,
Os que preferem roseiras,
Outros, um pé de cajá...
Há plantios bagunçados,
Os de comigo-ninguém-pode,
Há cafezais bichados,
Os que alimentam bodes.
Bananais apodrecendo,
Roçados comunitários,
Hortas sem um cercado,
Há os latifundiários...
Mas o que quer que a gente plante
Nas fronteiras de nossas vidas,
Sabemos: vamos colher
Conforme a semente escolhida.
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Véus (Dália Negra)
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Invisível véu dos meus sonhos
Que transforma o mundo em algo bom.
Estranho véu, a minha vida,
Que me foi dada como dom.
Parco véu, a esperança,
Que não me cobre o necessário.
Véus que uso como fronteiras
Neste mundo temerário.
Invisível véu dos meus sonhos
Que transforma o mundo em algo bom.
Estranho véu, a minha vida,
Que me foi dada como dom.
Parco véu, a esperança,
Que não me cobre o necessário.
Véus que uso como fronteiras
Neste mundo temerário.
Sapatos Novos (Ferreira Gullar)
A situação estava razoavelmente sob controle: se minha condição de extramensalista do IAPC me sujeitava a um salário baixo, o cartão falso de estudante, que me permitia almoçar no Calabouço por dois cruzeiros, aliviava a barra. Uma vaga de quarto na pensão da rua Carlos Sampaio não custava muito. E ainda havia os trocados que pingavam da colaboração eventual no suplemento literário do Correio da Manhã ou do Diário de Notícias. O meu único terno, comprado a prestações num alfaiate da rua do Resende, estava pago. O problema grave no momento eram os sapatos, cujos solados gastos já me deixavam sentir diretamente no pé a aspereza das calçadas do Rio. Em bom português: estavam furados.
Por isso mesmo, não resisti ao ver, na vitrine de uma sapataria da Lapa, um par de sapatos por 150 cruzeiros. Maravilha! Hoje, após tantos cortes de zeros no cruzeiro e até a mudança do nome da moeda, será difícil para o leitor avaliar o preço desses sapatos. Mas eram baratos, sem dúvida alguma. Entrei, experimentei-os e decidi que devia comprá-los, embora estivessem um pouco apertados. Um pouco, foi o que disse a mim mesmo, porque aquela pechincha era minha salvação.
Estavam de fato muito apertados, tanto que, ao chegar à redação da revista do IAPC, onde trabalhava, ali na rua Alcindo Guanabara, meus pés ardiam em brasa. Com alívio, tirei-os dos pés e calcei de novo os sapatos furados que, providencialmente, trouxera comigo. Fui até o banheiro, molhei bem os sapatos novos e deixei-os ali, certo de que, quando secassem, estariam mais macios. Era verão e foi sob um sol de fogo que caminhei até o Calabouço para almoçar aquele dia. À tarde dei uma volta pelas livrarias, só pra ver os livros, e à noite tomei o meu cuba-libre com os amigos no então famoso Vermelhinho, em frente à ABI. Dormi pensando em meus sapatos novos.
Acordei pensando neles. Certamente ia poder calçá-los agora. Quase aflito, rumei para o IAPC, subi de elevador, abri a porta da repartição, dirigi-me ao banheiro onde deixara os sapatos sobre a pia. E lá estavam eles, secos, melhor dizendo: ressequidos, isto é, duros, rijos como casco de burro. Mesmo assim, tratei de calçá-los, o que só consegui com enorme esforço. “Pronto”, disse, terminando de lhes amarrar o cordão. Meu pé soltava faísca espremido ali dentro. Senti que não conseguiria dar um passo. Só há um jeito, pensei, e fui logo à prática: bati violentamente com o pé calçado no chão para forçar o couro a alargar-se. Foi uma patada só e o sapato explodiu.
Por isso mesmo, não resisti ao ver, na vitrine de uma sapataria da Lapa, um par de sapatos por 150 cruzeiros. Maravilha! Hoje, após tantos cortes de zeros no cruzeiro e até a mudança do nome da moeda, será difícil para o leitor avaliar o preço desses sapatos. Mas eram baratos, sem dúvida alguma. Entrei, experimentei-os e decidi que devia comprá-los, embora estivessem um pouco apertados. Um pouco, foi o que disse a mim mesmo, porque aquela pechincha era minha salvação.
Estavam de fato muito apertados, tanto que, ao chegar à redação da revista do IAPC, onde trabalhava, ali na rua Alcindo Guanabara, meus pés ardiam em brasa. Com alívio, tirei-os dos pés e calcei de novo os sapatos furados que, providencialmente, trouxera comigo. Fui até o banheiro, molhei bem os sapatos novos e deixei-os ali, certo de que, quando secassem, estariam mais macios. Era verão e foi sob um sol de fogo que caminhei até o Calabouço para almoçar aquele dia. À tarde dei uma volta pelas livrarias, só pra ver os livros, e à noite tomei o meu cuba-libre com os amigos no então famoso Vermelhinho, em frente à ABI. Dormi pensando em meus sapatos novos.
Acordei pensando neles. Certamente ia poder calçá-los agora. Quase aflito, rumei para o IAPC, subi de elevador, abri a porta da repartição, dirigi-me ao banheiro onde deixara os sapatos sobre a pia. E lá estavam eles, secos, melhor dizendo: ressequidos, isto é, duros, rijos como casco de burro. Mesmo assim, tratei de calçá-los, o que só consegui com enorme esforço. “Pronto”, disse, terminando de lhes amarrar o cordão. Meu pé soltava faísca espremido ali dentro. Senti que não conseguiria dar um passo. Só há um jeito, pensei, e fui logo à prática: bati violentamente com o pé calçado no chão para forçar o couro a alargar-se. Foi uma patada só e o sapato explodiu.
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A Pulga (John Donne)
Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
.....Mas ela goza sem ter cortejado
.....E incha de um sangue em dois revigorado:
.....É mais do que teríamos logrado.
Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
.....E embora possas dar-me fim, não dês:
.....É suicídio e sacrilégio, três
.....Pecados em três mortes de uma vez.
Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegras de dizer que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
.....Então, tua cautela é desmedida.
.....Tanta honra hei de tomar, se concedida,
.....Quanto a morte da pulga à tua vida.
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Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
.....Mas ela goza sem ter cortejado
.....E incha de um sangue em dois revigorado:
.....É mais do que teríamos logrado.
Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
.....E embora possas dar-me fim, não dês:
.....É suicídio e sacrilégio, três
.....Pecados em três mortes de uma vez.
Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegras de dizer que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
.....Então, tua cautela é desmedida.
.....Tanta honra hei de tomar, se concedida,
.....Quanto a morte da pulga à tua vida.
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O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)
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DEMAIS, DEMAIS, DEMAIS!
E olha que não sou candidata a miss… rsrsrs
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DEMAIS, DEMAIS, DEMAIS!
E olha que não sou candidata a miss… rsrsrs
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Escrava Isaura (Bernardo Guimarães)
Escrava Isaura li há muito tempo. Nem lembro direito dos detalhes, só sei que a coitada sofreu pra burro por conta daquele coronel malvadão, mas acabou com final feliz, bem ao estilo maniqueísta, e ela nem precisou de terapia depois de tantas torturas. Ah! Nada como a literatura romântica!
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Lya Luft
Nunca li um livro inteiro de Lya Luft, só conheço partes, mas me parece que ela é um misto de Clarice Lispector com Lygia Fagundes Telles: profunda e pé-no-chão.
Quanto às poesias, só gostei de poucas, creio que ela seja melhor em prosa.
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Quanto às poesias, só gostei de poucas, creio que ela seja melhor em prosa.
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Amor Sem Fronteiras (Aaron Caronte Badiz)
Meu amor:
Hoje venho lhe dizer que por todo o tempo que convivemos eu me senti um com você. Somos um casal com nossas diferenças pessoais, com nossas formas individuais, tão distintos um do outro... Mas ao mesmo tempo somos um mundo à parte de todos, um mundo harmônico, das mesmas palavras, das mesmas ideias, do mesmo pensar.
Somos um, meu amor, somos um só. E nós, dentro destas fronteiras que nos separam do que há lá fora, não temos nenhuma fronteira entre nós. E por isso eu te agradeço hoje e sempre.
Com carinho,
Aaron
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Hoje venho lhe dizer que por todo o tempo que convivemos eu me senti um com você. Somos um casal com nossas diferenças pessoais, com nossas formas individuais, tão distintos um do outro... Mas ao mesmo tempo somos um mundo à parte de todos, um mundo harmônico, das mesmas palavras, das mesmas ideias, do mesmo pensar.
Somos um, meu amor, somos um só. E nós, dentro destas fronteiras que nos separam do que há lá fora, não temos nenhuma fronteira entre nós. E por isso eu te agradeço hoje e sempre.
Com carinho,
Aaron
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As Fronteiras (Lélia)
Entre todas as pessoas há fronteiras. Às vezes elas são nítidas, às vezes não. Algumas pessoas deixam bem claro que não há como chegar até elas e que você deve manter distância, outras agem como se suas fronteiras não existissem. Mas não há forma melhor de ultrapassar as fronteiras humanas possíveis do que através de um caloroso e amigo abraço.
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A Fome e o Amor (Augusto dos Anjos)
Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas que esbanjem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríase sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
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Receando outras mandíbulas que esbanjem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!
Amor! E a satiríase sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!
Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois
Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!
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